Interseção com uma Alteridade (Intersection with an Alterity)
2025
Film Cycle at Escola das Artes - Universidade Católica Portuguesa
O cinema adquiriu, pela sua associação à criação através da semelhança com o real e do movimento, uma união imediata com a representação. Quer no contexto do cinema industrial como em percursos mais independentes, a expressão artística cinematográfica vê-se maioritariamente alicerçada sobre o seu potencial perante a representação, quer através de ficções ou de documentários. O cinema, sedimentando-se como meio através do qual o Humano se vê a si mesmo, torna-se, assim, espelho cristalizado daquilo que Ele é e futuro construtor daquilo que virá a ser. Por outro lado, parte do trajeto de realizadores e artistas interessados pelo cinemaexperimental coloca-se precisamente no de, perante a negligência do aparato cinematográfico, relembrar a estrutura do cinema e sua manipulabilidade, interessando-se pela criação de obras de um caráter que poderia ser considerado abstrato, ou não-representativo. Esta dualidade, entre o cinema que representa algo e o cinema que não representa nada, presume uma binariedade que, ultrapassando o contexto da imagem cinematográfica, assenta numa disjunção exclusiva onde a imagem que está perante nós ou aponta para algo ou não aponta para coisa nenhuma.
O objetivo deste ciclo em quatro sessões resume-se, primeiramente, a desafiar essa conceção. Ao propor que o signo não assume o seu significado enquanto valor absoluto dado em relação a um objeto que lhe é exterior, o que se segue é que esta associação é construída por aquele que o vê e as relações por ele atualizadas. No ato de ver, está contido implicitamente um ato de “ver como”. O potencial que reside nesta transferência aparentemente inócua fluoresce quando o limite da representação, por deixar de ser delimitado, torna-se permeável e, portanto, individual e manipulável. Ou seja, o Humano não só vê-se na imagem perante ele, mas delimita-se, transforma-se, manipula-se e encontra-se. Se o limite entre o representativo e o não-representativo não é uma linha, mas um gradiente, o percurso aqui escolhido passa pela tentativa de o procurar, e, ao fazê-lo, o transformar: o cinema enquanto espaço onde o Humano se revê e se constrói. A oscilação entre representação e não-representação, entre significado e ausência de significado, entre estar dentro e fora do domínio permitem o projeto construcionista de se rever e construir, “tomando o Humano como uma hipótese construtiva, um espaço de navegação e intervenção.”
O objetivo do ciclo não é selecionar filmes com temáticas (anti-)humanistas, mas antes traçar momentos em que o confronto entre o humano e o não-humano e entre a figuração e abstração ocorrem em paralelo: o contacto com o não-humano como sendo um “fazer-ter-sentido”; e, de volta, a ressignificação do sentido como revisão e construção. As três primeiras sessões constroem um percurso. A primeira sessão consiste no filme Maya, de Teo Hernandez, que experimenta através de uma câmara frenética uma oscilação entre a protagonista e o meio natural envolvente, onde a identificação do que vemos é muitas vezes impossível. Oscilando constantemente entre a figura, a paisagem e a simples incógnita, os elementos continuamente misturam-se e confundem-se. Esta sessão tem como objetivo apresentar o conflito em questão. Se este conflito se apresenta entre duas entidades, humano e não-humano, a segunda e terceira sessões propõem-se a fragmentá-las.
A segunda sessão consiste em três filmes: The Inauguration of the Pleasure Dome, de Kenneth Anger; In the Shadow of the Sun, de Derek Jarman e Dream Enclosure, de Sandy Ding. Focando-se no Humano e na representação, esta sessão apresenta três filmes onde é possível identificar personagens e narrativa, mas onde a linearidade é substituída por espaço de sonho, de ritual, de exagero, de incompreensão. Através precisamente do abismo que caracteriza qualquer interação entre o Humano e o seu exterior, o espaço alucinatório explicita esse movimento constante de fazer e deixar de fazer sentido, de uma comunicação necessariamente, em parte, sem sentido.
A terceira apresenta cinco curtas-metragens numa projeção em 16mm. Focando-se no não-humano e com particular destaque ao reino vegetal, a mediação inerente a este contacto materializa-se de cinco formas diferentes. Através dos filmes Alaya, de Nathaniel Dorsky, Discoveries on the Forest Floor, de Charlotte Pryce, Bouquets 1-10 de Rose Lowder e The Wold-Shadow de Stan Brakhage, vemos uma representação constante do mundo natural através de diferentes escalas e intervenções, possibilitando igualmente diferentes representações e abstrações. Filmando o mundo natural seja enquanto paisagem ou enquanto pormenor ampliado, a sequência de filmes almeja acima de tudo um interesse pelo “fazer-ter-sentido” do mundo natural. Desse modo, o último filme, Seven Days, de Chris Welsby, pretende funcionar como um vetor que retorna ao ponto de partida, ao sujeito e às mediações através das quais vê.
A sessão final consiste no filme The Amazonian Angel, de Maria Klonaris e Katerina Thomadaki. Como epílogo do percurso das três sessões anteriores, o filme em questão assemelha-se ao primeiro, mas neste caso como retrato da artista Lena Vandrey. Aproximando o método e o trabalho da artista ao universo mitológico das realizadoras, o próprio trabalho artístico surge aqui como mediação de sentidos entre o humano e o seu contexto envolvente.
Com este ciclo de filmes, materializa-se um desafio ao espetador de, através de filmes oscilantes e mesclantes entre o figurativo e o abstrato, procurar na figura a forma, a cor, o movimento ou a textura e na mancha o rosto, o objeto ou uma referência.
Referências:
Wittgenstein, L. Investigações Filosóficas
Negarestani, R. Labour of the Inhuman