Uma Ontologia da Imagem Cinematográfica em Contexto Expandido: ‘Significado como Uso’ no Cinema
2025
Communication Presented at XIV Encontro Anual e Congresso Internacional AIM at Universidade do Algarve
Abstract
Procurando delimitar a imagem cinematográfica no contexto do cinema moderno, Gilles Deleuze circunscreve os conceitos de imagem-movimento e imagem-tempo como forma de permitir a articulação entre as imagens do cinema clássico e as do cinema moderno, que procurava romper com o caráter representacional e ilusório, estabelecido maioritariamente pelas grandes indústrias. A imagem-tempo, para Deleuze, consistiria precisamente nestes signos que denunciariam a incapacidade à referenciação, reconstruindo a realidade ao invés de tentar espelhá-la. Paralelamente a esta rutura, uma grande quantidade de realizadores experimentais, maioritariamente no continente americano, procurava do mesmo modo desafiar o cinema enquanto experiência ilusória com uma abordagem radicalmente diferente, explorando materialmente os limites e os axiomas da própria definição de cinema. Obras de artistas como Paul Sharits e Tony Conrad são exemplares neste sentido, apresentando objetos artísticos onde a relação com a linguagem cinematográfica centra-se maioritariamente na manipulação de, por vezes apenas alguns, elementos da sua produção usual (luz, película, projetor, etc.). As limitações da imagem cinematográfica de Deleuze para lidar com o cinema de atrações e as práticas expandidas têm sido progressivamente problematizadas, realçando a sua redução a imagens pré-cinematográficas ou, quando mencionadas, a simples imagens-perceção, respetivamente. Neste sentido, e salientando a importância de, como refere Liz Kotz, disciplinar o cinema expandido, esta investigação parte desta problemática para traçar parte de um esboço de uma possível ontologia que permita a sua articulação com práticas que trabalhem elementos ausentes da gramática cinematográfica usual. Neste sentido, a obra tardia de Ludwig Wittgenstein servirá como elemento estrutural para esta elaboração. Contrastando com a sua abordagem inicial, de redução da linguagem a uma denotação representacional (paralelizável com a representação e classificação das imagens do cinema clássico), em “Investigações Filosóficas” o autor propõe uma teoria semântica de significado como uso, onde seria este que produziria o primeiro. Pretendemos, com esta investigação, explorar particularmente o desenvolvimento da ideia de ver como, e a forma como a adoção de uma perspetiva neste sentido pode permitir aos signos cinematográficos ganharem significação pelo uso, rejeitando uma particularização essencializante e permitindo a sua incorporação enquanto cinema através de usos contextuais que produzem significados. A investigação debruçar-se-á, portanto, nas potencialidades, problematizações e consequências da interseção desta perspetiva com os signos cinematográficos, tomando como casos de estudos os trabalhos de Paul Sharits, Tony Conrad e outras práticas experimentais dos anos 70.